sábado, 17 de agosto de 2013


"-Estou cansada.
Vou viajar...

- Ah! a cura geográfica."

Diálogo no filme "Flores Raras"

segunda-feira, 5 de agosto de 2013

Mundo Grande
Carlos Drummond de Andrade

Não, meu coração não é maior que o mundo.
É muito menor.
Nele não cabem nem as minhas dores.
Por isso gosto tanto de me contar.

Por isso me dispo,
por isso me grito,
por isso freqüento os jornais, me exponho cruamente nas livrarias:
preciso de todos.

Sim, meu coração é muito pequeno.
Só agora vejo que nele não cabem os homens.
Os homens estão cá fora, estão na rua.
A rua é enorme. Maior, muito maior do que eu esperava.
Mas também a rua não cabe todos os homens.
A rua é menor que o mundo.
O mundo é grande.

Tu sabes como é grande o mundo.
Conheces os navios que levam petróleo e livros, carne e algodão.
Viste as diferentes cores dos homens,
as diferentes dores dos homens,
sabes como é difícil sofrer tudo isso, amontoar tudo isso
num só peito de homem... sem que ele estale.


Fecha os olhos e esquece.
Escuta a água nos vidros,
tão calma, não anuncia nada.
Entretanto escorre nas mãos,
tão calma! Vai inundando tudo...
Renascerão as cidades submersas?
Os homens submersos - voltarão?

Meu coração não sabe.
Estúpido, ridículo e frágil é meu coração.
Só agora descubro
como é triste ignorar certas coisas.
(Na solidão de indivíduo
desaprendi a linguagem
com que homens se comunicam.)

Outrora escutei os anjos,
as sonatas, os poemas, as confissões patéticas.
Nunca escutei voz de gente.
Em verdade sou muito pobre.

Outrora viajei
países imaginários, fáceis de habitar,
ilhas sem problemas, não obstante exaustivas e convocando ao suicídio.

Meus amigos foram às ilhas.
Ilhas perdem o homem.
Entretanto alguns se salvaram e
trouxeram a notícia
de que o mundo, o grande mundo está crescendo todos os dias,
entre o fogo e o amor.

Então, meu coração também pode crescer.
Entre o amor e o fogo,
entre a vida e o fogo,
meu coração cresce dez metros e explode.
- Ó vida futura! Nós te criaremos.

Sugestões para atravessar agosto...

Para atravessar agosto é preciso antes de mais nada paciência e fé. Paciência para cruzar os dias sem se deixar esmagar por eles, mesmo que nada aconteça de mau; fé para estar seguro, o tempo todo, que chegará setembro — e também certa não-fé, para não ligar a mínima às negras lendas deste mês de cachorro louco. É preciso quem sabe ficar-se distraído, inconsciente de que é agosto, e só lembrar disso no momento de, por exemplo, assinar um cheque e precisar da data. Então dizer mentalmente ah!, escrever tanto de tanto de mil novecentos e tanto e ir em frente. Este é um ponto importante: ir, sobretudo, em frente.


Para atravessar agosto também é necessário reaprender a dormir. Dormir muito, com gosto, sem comprimidos, de preferência também sem sonhos. São incontroláveis os sonhos de agosto: se bons deixam a vontade impossível de morar neles; se maus, fica a suspeita de sinistros augúrios, premonições. Armazenar víveres, como às vésperas de um furacão anunciado, mas víveres espirituais, intelectuais, e sem muito critério de qualidade. Muitos vídeos, de chanchadas da Atlântida a Bergman; muitos CDs, de Mozart a Sula Miranda; muitos livros, de Nietzsche a Sidney Sheldon. Controle remoto na mão e dezenas de canais a cabo ajudam bem: qualquer problema, real ou não, dê um zap na telinha e filosoficamente considere, vagamente onipotente, que isso também passará. Zaps mentais, emocionais, psicológicos, não só eletrônicos, são fundamentais para atravessar agostos.

Claro que falo em agostos burgueses, de médio ou alto poder aquisitivo. Não me critiquem por isso, angústias agostianas são mesmo coisa de gente assim, meio fresca que nem nós. Para quem toma trem de subúrbio às cinco da manhã todo dia, pouca diferença faz abril, dezembro ou, justamente agosto. Angústia agostiana é coisa cultural, sim. E econômica. Mas pobres ou ricos, há conselhos — ou precauções — úteis a todos. O mais difícil: evitar a cara de Fernando Henrique Cardoso em foto ou vídeo, sobretudo se estiver se pavoneando com um daqueles chapéus de desfile à fantasia, categoria originalidade... Esquecê-lo tão completamente quanto possível (santo zap!): FHC agrava agosto, e isso é tão grave que vou mudar de assunto já.

Para atravessar agosto ter um amor seria importante, mas se você não conseguiu, se a vida não deu, ou ele partiu — sem o menor pudor, invente um. Pode ser Natália Lage, Antônio Banderas, Sharon Stone, Robocop, o carteiro, a caixa do banco, o seu dentista. Remoto ou acessível, que você possa pensar nesse amor nas noites de agosto, viajar por ilhas do Pacífico Sul, Grécia, Cancún, ou Miami, ao gosto do freguês. Que se possa sonhar, isso é que conta, com mãos dadas, suspiros, juras, projetos, abraços no convés à luz da lua cheia, brilhos na costa ao longe. E beijos, muitos. Bem molhados.

Não lembrar dos que se foram, não desejar o que não se tem e talvez nem se terá, não discutir, nem vingar-se ou lamuriar-se, e temperar tudo isso com chás, de preferência ingleses, cristais de gengibre, gotas de codeína, se a barra pesar, vinhos, conhaques — tudo isso ajuda a atravessar agosto. Controlar o excesso de informação para que as desgraças sociais ou pessoais não deem a impressão de serem maiores do que são. Esquecer o Zaire, a ex-Iugoslávia, passar por cima das páginas policiais. Aprender decoração, jardinagem, ikebana, a arte das bandejas de asas de borboletas — coisas assim são eficientíssimas, pouco me importa ser acusado de alienação. É isso mesmo; evasão, escapismos. Assumidos, explícitos.

Mas para atravessar agosto, pensei agora, é preciso principalmente não se deter demais no tema. Mudar de assunto, digitar rápido o ponto final, sinto muito perdoe o mau jeito, assim, veja, bruto e seco.

Caio Fernando Abreu

quinta-feira, 7 de fevereiro de 2013

Pra que serve o carnaval?

"Ah, minha amiga

Se fosse carnaval eu te pedia

Pedia um beijo

Pedia o sorriso dos teus olhos

Pedia tua beleza, tua carne, tua intimidade

Que é pra isso que serve o carnaval

Pra afogar todas às magoas

Todo o ressentimento

Pra abrir o couro e fazer o choro

( É pra isso que serve o carnaval )

Pra começar tudo de novo

Pra tristeza sair em forma de marchinha

Regada a todo tipo de bebida

Disfarçada de alegria sem falsa modéstia

Mas ao fim, ao relutante fim, ela vai se embora

Sobra ao chão o confete e as garrafas

Corpos dormidos que foram bem quistos

E nos hotéis e motéis os lençóis usados

O silêncio enfim do ano duro que se foi

Porque o ano só começa mesmo depois do carnaval

A vida diária só começa depois dessa seresta

Depois que já se foi muito sal grosso ao balanço do mar

Ah, minha amiga, O carnaval !

Pra cortar todas as veias

Pra abrir todas as artérias

Pra levantar toda poeira

Fazer correr o sangue novo

Extravasar toda besteira

Todo grito engolido do ano que se foi

Todos estes verbos tem o carnaval

Carnaval não é brincadeira

É coisa séria

É a união da massa em toda sua potência

Ninguém destrói o carnaval !

Quem sabe pensasse o letrado

Em se misturar à gentalha

E daí todos na maior cangalha

Ir sambar o Congresso

Porque o que falta à estes finados

É o tal pé surrado e o coração fudido

Mas que ao som do batuque

Continua sua marcha

Sim, no carnaval todo mundo é igual

Todo peito chora

Toda boca beija

E quer queira ou não

Toda pele extravasa alguma emoção

Aí a magia e o poder do carnaval

Essa ruptura no tempo e no espaço

Esse deslocamento da razão

Onde toda liberdade é feita

À gostos e contra gostos

Porque nos outros dias todo mundo é normal

Nos outros dias é ‘isso pode’ e ‘isso não pode’

Mas não no carnaval

Homem se veste de mulher

Mulher se veste de homem

Tudo fica aberto à fantasia

É a tal lei da alegria

E, exceto a casos fortuitos,

Tudo se dá no maior arranjo

Até ! os casos de amor e traição

Ah, minha amiga

É pra isso que serve o carnaval

E voltando ao começo

Eu te pedia, se fosse carnaval,

Um beijo

Um prolongado e demorado beijo

Pra findar toda dor do meu coração."

Por Rodrigo Brand, aqui http://poesiasbrandas.blog.com/2013/02/07/pra-que-serve-o-carnaval/

terça-feira, 11 de dezembro de 2012

quinta-feira, 6 de dezembro de 2012

Nando Reis pra Martinália... Zero Muito

Você não precisa achar que me fere, corresponder
Nunca pedi isso eu nunca esperei
Doce a dor essa vida, grande mistério pra resolver
Sonho é dom
É a vista que os olhos cegos conseguem ver


Fazer do zero, muito
Luz no céu escuro
Fruto sem pé, maduro
Pra gente comer

Você não devia achar que me deve, obedecer
Não sou juiz não existe essa lei
É muito mais simples nada tão sério
Mas o que eu vou fazer?
Você não curte, o que eu curto
O mesmo sexo, outro prazer

Um zero a zero, nulo
Não dá pé, nem futuro
Templo sem fé, um muro pra se esconder

Mas acontece que o amor
Não tem razão sua raiz
É uma nação sem ser lugar
Não tem noção: o que ele diz?

Não há balcão pra se comprar
Se começou, quem quer o fim?
A sua cor tem o luar
Que o por-do-sol deixou luzir

A imensidão que tem o mar
A explosão de um céu azul
A dimensão solta do ar
A invenção que existe em mim
Que é você

quinta-feira, 15 de novembro de 2012

"Eu pensei correr de mim
Mas aonde eu ia eu tava
Quanto mais eu corria
Mais pra perto eu chegava

Quando o calcanhar chegava
O dedão do pé já tinha ido
Escondendo eu me achava
E me achava escondido
Só sei que quando penso que sei
Já não sei quem sou
Já enjoei de me achar no lugar
Que aonde eu vou eu tô

Eu pensei correr de mim...

Tô pensando tirar férias de mim
Mas eu também quero ir
Só vou se minha sombra não for
Se ela for eu fico aqui
Um dia desses sonhando
Eu pensei: não vou me acordar
Vou me deixar dormindo
E levanto pra comemorá

Eu pensei correr de mim...

O espelho me disse
Só tem um jeito pro assunto
Não adianta querer morrer
Porque se morrer vai junto
Se correr o bicho pega
Mas se limpar o bicho some
Tem que desembaraçar
O novelo da vida do homem"

Juraildes da Cruz

terça-feira, 16 de outubro de 2012


"Nada como um dilema para fortalecer decisões."


Meu sonho de casamento
Fabricio Carpinejar

sexta-feira, 5 de outubro de 2012

Sou dessas que tem binóculos...


Acompanhe o pássaro
Mas não atrapalhe o vôo
Não tente olhar com as mãos
Estar perto requer outros dons

De todas as coisas, eu espero que você permaneça
De todas as coisas, eu espero que você permaneça
Em mim


Passarinho quis voar
E voou
Passarinho quis voar
E realmente voou
Eu não atrapalho não
Sou dessas que tem binóculos
Eu não atrapalho nunca
Eu tenho um coração de espuma

De todas as coisas, eu espero que você permaneça
De todas as coisas, eu espero que você permaneça
Em mim

De todas as cores, eu espero que você azuleje
De todas as noites, eu espero que você amanheça
No fim

Letuce
Binóculos

para Fabio

quinta-feira, 27 de setembro de 2012

Karina Buhr está em mim desde que vi o filme "Era uma vez eu, Verônica"...


Mira Ira


Tá tudo padronizado
No nosso coração
Nosso jeito de amar
Pelo jeito não é nosso não
Tá tudo padronizado

Me mira ira
Me mira mas me erra

Mas minha mira me era confusa
Mudando meu amor de endereço
Fria
Não mira ira
Não miro mas te acerto no peito
Quando mudo meu amor de endereço

Me mira ira
Me mira mas me erra no escuro
Sentindo teu amor profundamente


Karina Buhr

segunda-feira, 24 de setembro de 2012

"Nunca o silêncio gritou tanto nas ruas da minha memória..."

do documentário sobre Ney Matogrosso "Olho Nu"

segunda-feira, 17 de setembro de 2012

Recordo aqui, com carinho, a querida Poli, que se recordou ao mandar esse fragmento...

"Recordar: do latim re-cordis, tornar a passar pelo coração."

Eduardo Galeano- O LIVRO DOS ABRAÇOS:

domingo, 2 de setembro de 2012

Corte Seco...

O que muda quando algo muda?

Corte seco é sobre os cortes que podem mudar tudo. Acasos. Perdas. Encontros. Desencontros. Acidentes. Repetições. Pessoas que passam. Passagens. Ruas e avenidas. Vigilância. Fragmentos da vida? Janelas. Muitas janelas. O que tem por trás? O que tem por trás do que não vemos? Nós, voyeres de nós mesmos. Teatro. Essa pequena sociedade que se forma a cada dia. Atores e personagens. o que tem por trás do que não vemos? A estrutura aparente. Transparente. Visível. O jogo mostrado, vivido, ao vivo. O corte em cena, como na vida, será inesperado. Como na vida, o teatro um jogo sem rede. Risco. Risco. Risco no chão. Corta. Corte seco, ainda sangra? Sangra. Mas traz o novo. De novo. O novo. Sem medo. E fim.

Christiane Jatahy
diretora do espetáculo Corte Seco, sobre.

por Mia Couto...escrever é viver...e caderninhos e blog's, na atualidade, são como pedaço de vida...

O menino que escrevia versos


De que vale ter voz
se só quando não falo é que me entendem?
De que vale acordar
se o que vivo é menos do que o que sonhei?

(VERSOS DO MENINO QUE FAZIA VERSOS)


— Ele escreve versos!
Apontou o filho, como se entregasse criminoso na esquadra. O médico levantou os olhos, por cima das lentes, com o esforço de alpinista em topo de montanha.
— Há antecedentes na família?
— Desculpe doutor?

O médico destrocou-se em tintins. Dona Serafina respondeu que não. O pai da criança, mecânico de nascença e preguiçoso por destino, nunca espreitara uma página. Lia motores, interpretava chaparias. Tratava bem, nunca lhe batera, mas a doçura mais requintada que conseguira tinha sido em noite de núpcias:
— Serafina, você hoje cheira a óleo Castrol.

Ela hoje até se comove com a comparação: perfume de igual qualidade qual outra mulher ousa sequer sonhar? Pobres que fossem esses dias, para ela, tinham sido lua-de-mel. Para ele, não fora senão período de rodagem. O filho fora confeccionado nesses namoros de unha suja, restos de combustível manchando o lençol. E oleosas confissões de amor.


Tudo corria sem mais, a oficina mal dava para o pão e para a escola do miúdo. Mas eis que começaram a aparecer, pelos recantos da casa, papéis rabiscados com versos. O filho confessou, sem pestanejo, a autoria do feito.
— São meus versos, sim.

O pai logo sentenciara: havia que tirar o miúdo da escola. Aquilo era coisa de estudos a mais, perigosos contágios, más companhias. Pois o rapaz, em vez de se lançar no esfrega-refrega com as meninas, se acabrunhava nas penumbras e, pior ainda, escrevia versos. O que se passava: mariquice intelectual? Ou carburador entupido, avarias dessas que a vida do homem se queda em ponto morto?

Dona Serafina defendeu o filho e os estudos. O pai, conformado, exigiu: então, ele que fosse examinado.
— O médico que faça revisão geral, parte mecânica, parte eléctrica.

Queria tudo. Que se afinasse o sangue, calibrasse os pulmões e, sobretudo, lhe espreitassem o nível do óleo na figadeira. Houvesse que pagar por sobressalentes, não importava. O que urgia era pôr cobro àquela vergonha familiar.

Olhos baixos, o médico escutou tudo, sem deixar de escrevinhar num papel. Aviava já a receita para poupança de tempo. Com enfado, o clínico se dirigiu ao menino:
— Dói-te alguma coisa?
—Dói-me a vida, doutor.

O doutor suspendeu a escrita. A resposta, sem dúvida, o surpreendera. Já Dona Serafina aproveitava o momento: Está a ver, doutor? Está ver? O médico voltou a erguer os olhos e a enfrentar o miúdo:
— E o que fazes quando te assaltam essas dores?
— O que melhor sei fazer, excelência.
— E o que é?
— É sonhar.

Serafina voltou à carga e desferiu uma chapada na nuca do filho. Não lembrava o que o pai lhe dissera sobre os sonhos? Que fosse sonhar longe! Mas o filho reagiu: longe, porquê? Perto, o sonho aleijaria alguém? O pai teria, sim, receio de sonho. E riu-se, acarinhando o braço da mãe.

O médico estranhou o miúdo. Custava a crer, visto a idade. Mas o moço, voz tímida, foi-se anunciando. Que ele, modéstia apartada, inventara sonhos desses que já nem há, só no antigamente, coisa de bradar à terra. Exemplificaria, para melhor crença. Mas nem chegou a começar. O doutor o interrompeu:
— Não tenho tempo, moço, isto aqui não é nenhuma clinica psiquiátrica.

A mãe, em desespero, pediu clemência. O doutor que desse ao menos uma vista de olhos pelo caderninho dos versos. A ver se ali catava o motivo de tão grave distúrbio. Contrafeito, o médico aceitou e guardou o manuscrito na gaveta. A mãe que viesse na próxima semana. E trouxesse o paciente.

Na semana seguinte, foram os últimos a ser atendi dos. O médico, sisudo, taciturneou: o miúdo não teria, por acaso, mais versos? O menino não entendeu.
— Não continuas a escrever?
— Isto que faço não é escrever, doutor. Estou, sim, a viver. Tenho este pedaço de vida — disse, apontando um novo caderninho — quase a meio.

O médico chamou a mãe, à parte. Que aquilo era mais grave do que se poderia pensar. O menino carecia de internamento urgente.
— Não temos dinheiro — fungou a mãe entre soluços.
— Não importa — respondeu o doutor.

Que ele mesmo assumiria as despesas. E que seria ali mesmo, na sua clínica, que o menino seria sujeito a devido tratamento. E assim se procedeu.

Hoje quem visita o consultório raramente encontra o médico. Manhãs e tardes ele se senta num recanto do quarto onde está internado o menino. Quem passa pode escutar a voz pausada do filho do mecânico que vai lendo, verso a verso, o seu próprio coração. E o médico, abreviando silêncios:
— Não pare, meu filho. Continue lendo...



Mia Couto- do livro O fio das Missangas